A Morte
Será, à partida - nunca se sabe…, impossível sabermos como é a Morte. É uma verdade de la Palice, é preciso morrer para saber o que é estar morto. Parece óbvio. Será mesmo?
Existem inúmeras teorias sobre a Morte (neste caso a palavra Morte é mesmo com letra maiúscula uma vez que falo nela, usando o seu nome próprio - nomes próprios = inicial maiúscula).
(Não continuar a ler se se consideram pessoas impressionáveis.)
A teoria de quando se morre se vai para o Céu, perfeitamente enraizada na crença religiosa cristã, tendo de se passar antes pelo purgatório onde seremos julgados pelos actos que realizámos em vida e aí se decidirá o nosso destino eterno. Resta a quem nela acredita esperar que o S. Pedro lhe abra as portas do Paraíso onde continuarão a sua existência ao lado de Deus e de todos aqueles que amaram e que já pereceram.
Há a teoria mulçumana onde cada homem tem direito a 70 virgens, quiçá um paraíso deveras interessante. (Esqueceram-se é de lhes dizer que elas, sendo virgens, não percebem nada do assunto. E demoram para aprender.)
Entre muitas outras, existem as minhas duas teorias (até ver).
A saber, a teoria da escuridão total e a teoria da passagem de nível.
A Teoria da Escuridão Total
É o mesmo que dizer “simplesmente apagamos” (obrigado jotoa). Essa expressão define esta teoria.
Já alguma vez desmaiaram? O que viram? O que sentiram? O que aconteceu, o que se passou? Do que se recordam?
Nada. Não há nada. É como se nos desligássemos. Completamente.
Tal como quando desligamos o computador da ficha ele continua com os dados guardados no disco, ou com a data e hora guardados na BIOS (graças à pilha de lítio da motherboard), quando desmaiamos é como se nos tivessemos desligado. Não nos lembramos de nada, porque para nós simplesmente não houve nada. Para um computador desligado, também não. Quando acordamos, ainda temos a memória prévia ao desmaio a funcionar. O momento do desmaio é confuso. Tudo o resto, não existe.
Quando morremos é diferente. É estar desligado, sem passado, presente ou futuro. Como se o nosso disco fosse apagado, e a nossa pilha de lítio fosse removida. Não vemos, não sofremos, não nos arrependemos, não sentimos, não ouvimos, não nada.
Dessa perda de memória total, não posso ter a certeza, só se morresse e regressasse. Se isso acontecesse, esse pormenor nem seria o mais importante. Quem regressasse desvendaria logo esse mistério da Morte.
Esta é a teoria na qual eu mais acredito: não há nada. Nada de nada. Como costumo dizer, rien de Papu.
É uma das razões que me faz não ter medo da Morte.
Medo da maneira como morrerei, sim. Daquilo que há para além da vida, nem por isso. Não há lá nada, por isso não tenho medo.
A Teoria da Passagem de Nível
Não, esta teoria não se trata de uma passagem de nível de um comboio ou de um jogo de computador. Se bem que até podia pegar nessas imagens e explicá-la por aí.
A minha segunda teoria foi construída há mais tempo que a primeira e é mais infantil.
Surgiu daquela sensação que temos quando somos jovens: a imortalidade. Parece que nada nos faz mal, que não ficamos doentes, que os nossos dentes estarão sempre com saúde, que teremos tempo até isso tudo nos vier a acontecer.
Um dia sofri um grave acidente, fui parar ao hospital. Acordei no dia seguinte, confuso. “Aonde é que estou?” - perguntei às enfermeiras. Desde o momento em que tinha posto o pé na estrada para a atravessar, até acordar de manhã naquela cama de hospital não tinha registado nada. Total blackness. É nisto também em que se baseia a primeira teoria.
Quando falo em passagem de nível quero dizer o seguinte: e se, naquele acidente, eu morri mesmo? Não aguentei, fui directamente para a morgue sem passar pela cama do hospital (sem passar pela casa de partida e sem ter recebido os mil escudos alusão ao Monopólio) e enterrado no dia seguinte. Será que passei para o nível seguinte?
Entendam isto: fui atropelado, sobrevivi. Mas, sobrevivi apenas para nós, personagens e habitantes deste planeta Terra do 2º nível. Lá em baixo, na Terra de 1º nível morri mesmo, choraram por mim, enterraram-me e seguiram as suas vidas.
Parece confuso? Explico melhor.
Quando nascemos somos colocados num universo de nível 1. Todas as pessoas nos vêem, contactam connosco, como é normal.
Se tivermos um acidente mortal, cria-se uma cópia deste universo num nível 2. O universo de nível 2. Tudo o que nos rodeia - pessoas, animais, ambiente, nós mesmos, tudo mesmo - é copiado. A única diferença é que o nosso acidente teve um final feliz, para nós mesmos e para quem nos ama. Para eles, para a realidade do universo de nível 2, nós não morremos naquele acidente. Tivemos sorte, safámo-nos.
Lá em baixo (imaginemos a estrutura dos universos de níveis como os andares de um prédio: nível 1 = 1º andar, nível 2 = 2º andar, etc.), no universo de nível 1, a realidade é diferente: nós morremos mesmo nesse fatídico acidente. Quem nos ama, chorou, ficou triste. Deixámos de estar vivos. Acabou-se tudo. Seremos apenas uma memória guardada nas mentes e corações dos entes queridos.
Ou seja, finais alternativos, realidades diferentes: no primeiro nível morremos, no segundo nível estamos vivos.
Se tivermos novo acidente mortal, passamos para o universo de nível 3. Por aí em diante, vamos subindo tendo a sensação de ser realmente sortudos e… imortais.
Claro que, esta é apenas uma teoria.
Não sejam malucos, não inventem, não tentem isto em casa. Não quero ser responsável por nenhum suicídio, mesmo que o considerem uma experiência científica.
Eu já nem acredito muito na teoria da passagem de nível. É muita imaginação. É um quase um Matrix. Universos paralelos, realidades distintas. É interessante, mas não me convence.
Por outro lado, tenho quase a certeza que a teoria da escuridão é certa. “Quase” a certeza, nunca se sabe. Isso só mesmo morrendo para saber…
Sei que para muitos é importante que haja algo mais que apenas isto, que continuemos, que isto seja só uma passagem. Torna-nos menos inseguros, dá-nos sentido à vida, ajuda-nos a suportar esse inferno das horas difíceis.
A mim isso não me importa. Se há vida ou não depois da Morte, não me preocupa. Pelo menos, por enquanto… eu acho que não.
Enfim, a Morte é a única coisa certeza que temos nesta vida.










































Outubro 16th, 2008 at 18:18
Lá está, ninguém tem a certeza/sabe o que vai acontecer depois da morte.
É impossível saber isso, porque apesar de muitos terem estado “mortos”, foi apenas alguns minutos ou segundos, nada disso pode realmente traduzir o que se passa depois de termos morrido…ou será que pode?
Tenho mais receio do que vou sentir enquanto faleço, do que o que vai acontecer depois(se é que acontece algo).
Isto é algo mesmo muito ambíguo, que tem várias interpretações, mas que na verdade ninguém sabe qual delas a verdadeira ou se existe outra que nunca passou pela cabeça de ninguém.
É estranho..prefiro não pensar muito nisso e ir vivendo mais um bocadinho cada dia.
Outubro 17th, 2008 at 15:23
morrer tecnicamente é o que?
pq eu tenho um colega meu que teve o coração parado durante 3 minutos, isso quer dizer que morreu e não se lembra?
ou que não morreu, mas teve perto?
não sei… :\
Outubro 17th, 2008 at 16:07
Essa é a grande questão: o que é morrer efectivamente?
A morte clínica não é quando o cérebro pára? Mesmo com o cérebro morto o coração pode continuar a bater, daí a possibilidade dos transplantes.
O coração parado, no caso do teu amigo, não quer dizer que tenha estado morto. O corpo ainda tinha sangue anteriormente bombeado antes da paragem. Mais uns instantes e os órgãos começariam a entrar em falência.
Morrer é ficar sem coração e cérebro operacionais.
Quanto a mim não há nada depois disso: acabou-se.
Outubro 17th, 2008 at 16:45
Este tema… hum… er… coiso! É muito complicado, mas sinceramente nem vale a pena pensar nisso… mas se a Morte for como no “Meet Joe Black” (altura ideal para publicitar o meu cantinho - http://prontoassimtabem.blogspot.com/ - em que fiz um post acerca dessa Morte)… então só é pena morrermos num segundo… ou será que é mais tempo?
Beijones gimbras* (bigada pelos comentários lá no outro lado)
Outubro 17th, 2008 at 17:35
Obg eu Tita.
Essa Morte desse filme, tem que se lhe diga
Outubro 18th, 2008 at 23:51
Eu espero que haja vida depois da morte. A 2ª teoria é fixolas, nunca me tinha passado pela cabeça. Acredito em universos paralelos, mas desse tipo nunca me tinha ocorrido. Tenho medo da Morte e de como morrerei. Espero que seja velhinha e a dormir. Espero ir para um sítio melhor ou então continuar neste nosso mundo, sob alguma forma de reencarnação ou assim. Adoro a Terra e a Vida. E se puder, quero ser imortal! Às vezes desejo não sentir nada, tal como dizes na teoria 1, que quando morremos nao há sentimento de nada. Às vezes, quando estou mais angustiada, gostava de não ter sentimentos também. Mas depois começo a lembrar tudo aquilo que já senti e até as minhas tristezas me deram alegrias mais tarde e espero que continuem a dar. E começo a pensar em todas as coisas óptimas por que passei: amizades (ainda que algumas tenham esfriado ou mesmo extinguido), paixões, carinhos, sei lá tanta coisa. Desde o prazer de beber um copo de água quando tenho muita sede, passando pelo facto de estar apenas enrolado num cobertor a ver confortavelmente um filme, até à sensação de ser tão próxima de alguém ao ponto de a considerar quase irmã, ou de ter um amor correspondido. Acho que tudo isso vale a pena. Vale a pena viver, sentir e dar valor.
Mas isto é só a minha opinião.
Outubro 20th, 2008 at 9:22
É uma excelente opinião. Mostra que és uma apaixonada pela vida e isso é óptimo.
Confesso que não sou assim tanto, pelo menos não todos os dias. Todavia, considero que sim, deveriamos aproveitar e “beber” todos os pequenos prazeres da vida.
Muito bem.
Outubro 20th, 2008 at 12:10
[...] no tema do meu último post: A Morte (confesso que ando meio macabro), e num dos seus comentários passo a falar de um tema relacionado, [...]