Como te conheci, Avô

Segunda-feira, 23 Março 2009 por gimbras
Como te conheci, Avô10.0101

Não conheci, na verdadeira acepção da palavra, o meu Avô materno. Só me recordo dele já velhote e doente.

Tenho uma memória fantástica, capaz até de me lembrar do meu berço (sem exageros), mas só guardei imagens de o ver duas ou três vezes em pé.

Uma quando me tirou, com um gesto que interpretei como bruto, uma pequena pistola de fulminantes que o meu Tio me tinha emprestado, dizendo que aquilo não era brinquedo para mim.

Noutra, quando o vi regressar, rua acima, do barbeiro. Era raro vê-lo fora da cama (muito tempo acamado por doença).

No dia do seu velório e funeral, ao qual não assisti, disse-lhe adeus. Era garoto e ver alguém morto tornava-se difícil de digerir.

Os anos passaram, na curta distância temporal de quem fecha e reabre os olhos. Dei por mim com esta idade, tão longínqua daquele dia em que ele se despediu do Mundo.

Tão longe e… tão perto, finalmente, conheci-o. Foi no Verão passado, de regresso à terra das minhas raízes, onde ouvi dos lábios de alguém, do brilho cintilante do seu olhar, quem era, quem foi o senhor meu Avô.

Aprendi que o meu Avô era uma pessoa muito culta. Que todos o ouviam. Que explicava o porquê das coisas e dava todos os pequenos pormenores.

Era dono de uma loja lá na aldeia que vendia de tudo. Onde todos se reuniam para beber, conversar, tocar viola e cantar. Sabia a História da aldeia, como tinha acontecido isto e porque se chamava aquilo assim. Os cantos e recantos dos locais por onde passou.

Conhecia História e Geografia, assuntos vários, lia bastante. Era ávido para aprender e adorava partilhar o seu conhecimento.

Tudo tem um senão. Quis sair daquele meio e estudar, conhecer melhor ainda o Mundo e sorver toda a sabedoria quanto pudesse.

A vida foi-lhe madrasta e derrubou-o. Os seus olhos reflectiam um ser prostrado, uma alma triste. Sonhou muito, desejou-o, lutou por isso. Não pôde.

Morreu assim. Com um amargo de boca, um sentir despedaçado, uma lágrima que continha um oceano de sonhos que se perdiam.

Querido Avô Carlos, passaram vários anos, mas foste-me apresentado da melhor maneira possível. Num relato de uma passagem que se assemelha em tanto à minha. Compreendi como sou ao ser-me revelado quem foste.

Nessa história, nesse retrato, um conselho: continuar a sonhar e nunca desistir. Só assim a tua vida deixará de acabar como terminou. Só assim existirei com sentido.

Deixaste-nos um legado, a todos nós, teus filhos, netos e bisnetos, que temos de aproveitar.

Vamos aprender e ensinar. Ensinar e aprender. Aprendendo ensinando, ensinando aprendendo.

Por ti. Por nós. Para sempre.
Obrigado.
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